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Roberto Porto

Publicada em: 3/10/2010
Fonte: www.diretodaredacao.com

Rio - No já distante século passado, tão consumido pelas incertezas da inteligência e tão angustiado pelos tormentos do dinheiro e do desejo, frase magnífica de Eça de Queiroz (1845-1900), estava eu, no saudoso ano de 1968, pronto (e bem vestido) para ir à noite, com os companheiros de sempre ? José Inácio Werneck, Sérgio Noronha, Carlos Eduardo Novaes e Paulo Roberto Perdigão (1940-2007).

No momento em que me preparava para deixar a editoria de esportes do velho e bom Jornal do Brasil, ainda na Avenida Rio Branco, Oldemário Vieira Touguinhó (1934-2002) me avisou que eu estava de plantão, a fim de esperar o resultado de uma eleição na então CBD, com nosso enviado especial à Rua da Alfândega, Arthur Parahyba Dias (1920-2004). Sabia de antemão que seria uma tarefa das mais ingratas.

Depois de mais de uma hora de espera, eis que Parahyba chegou agitado, avisando que João Havelange (1916) havia sido reeleito. Diante da hora, perguntei a Oldemário qual seria o espaço da matéria, que ainda entraria no primeiro clichê. Oldemário, meio irritado com minha impaciência, avisou que teria 30 linhas. E Parahyba sentou-se diante de sua Remington e disparou a escrever.

Lá pelas tantas, fiz sinal a Oldemário avisando que Parahyba já escrevera cinco laudas (150 linhas) e ainda seguia batucando a máquina. Oldemário irritou-se ainda mais comigo e não tive alternativa que não a de esperar, ansioso para reescrever a matéria e ir embora. A noite me esperava no Zum Zum, Black Horse, Jirau ou El Cordobês.

Diante da proliferação dos escritos de Parahyba, tomei coragem e tornei a reclamar com Oldemário, pois a matéria do repórter da editoria já ultrapassava umas 10 laudas, ou 300 linhas. Oldemário, então, chamou Parahyba e pediu que trouxesse o que já escrevera. Quem sabe, o redator (eu, por acaso) não poderia ir adiantando o serviço? Parahyba obedeceu e levou o que já escrevera à mesa de Oldemário. Fui junto e Parahyba retornou a seus escritos. Lá pelas tantas, beirando o histerismo, Oldemário chamou Parahyba e perguntou onde a matéria começava. Deu-se o drama.

Parahyba olhou as laudas espalhadas na mesa, pegou uma ou duas delas e saiu-se com uma frase que hoje, tantos anos depois, não consigo esquecer:

- Agora vocês misturaram tudo e não sei onde a matéria começa...

Dito isso, retornou a seu lugar e seguiu escrevendo. Preocupado com o horário, Oldemário pegou o calhamaço de laudas e me ordenou que reescrevesse as tais 30 linhas. Foi uma questão de minutos e as 30 linhas, tituladas por mim, chegaram às mãos de Oldemário. Parahyba? Nem se deu conta. Fui-me embora encontrar os amigos, apesar de atrasado, e ele continuou escrevendo sem parar.

Essa matéria ganhou o nome de passatempo, ou seja, começava em qualquer lauda que você a pegasse para ler, como acontecia com os filmes das sessões passatempo, exibidas diariamente pelo cine Capitólio, na Cinelândia ou Cineac Trianon, na Avenida Rio Branco.

E Parahyba seguiu assim, prolífero e prolixo durante anos a fio. Mas, faço questão de dizer, sempre foi um homem sério e cumpridor de seus deveres. Estive com ele pela última vez na redação da Tribuna da Imprensa, onde, depois de mim, Roberto Assaf e Lina Marques, assumiram a editoria de esportes do jornal de Hélio Fernandes.

Coisas do jornalismo do século passado, sem sombra de dúvida.


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