|
Brasília (DF) - Como jogar sua reputação no lixo em menos de dois segundos? Fácil. É só perguntar ao pilotinho brasileiro Felipe Massichello, protagonista de uma das mais lamentáveis papagaiadas da Fórmula 1 recente. Aliás, uma repetição mambembe de uma farsa que outro pé-de-breque, o diminutivo Rubinho, protagonizou há oito anos quando, em Zeltweg, tirou o pé para seu companheiro Dick Vigarista ultrapassá-lo na última volta do GP da Áustria.
Repito: repetição mambembe de uma farsa porque na Áustria, Dick Vigarista era líder do campeonato e ?Rubinho? estava na última volta da prova. Hoje, o bestalhão brasileiro que dirige uma Ferrari na F1 estava na iminência de comemorar (e dar a volta por cima), no topo do pódio, um ano de um acidente quase fatal ocorrido na Hungria. Além disso, o seu companheiro de equipe ? o frustrado dedo-duro espanhol Fernando Alonso ? está longe na tabela. Com a vitória deste domingo manchado de negro na Alemanha, Alonso não passa de quinto no campeonato, a muitos pontos de distância de Lewis Hamilton, da McLaren.
Felipe Massichello, em menos de dois segundos, não apenas jogou sua reputação no lixo, mas fez de imbecis toda uma legião de fãs do automobilismo ? não necessariamente apenas os fãs do antigo Felipe Massa, ou mesmo da Ferrari ? que acreditou em suas palavras, repetidas à exaustão até bem recentemente: ele nunca aceitaria assinar um contrato que o obrigasse a dar passagem a seu companheiro de equipe, que a disputa era sempre de igual para igual. No entanto, foi exatamente o oposto disso que ele fez. Mentiu descaradamente, da maneira mais indigna, ao tirar o pé do acelerador logo após ouvir do chefe da equipe que ?Alonso está mais rápido do que você. Deu para entender isso??.
Felipinho Massichello, o funcionariozinho burocrata e bem comportado da Ferrari, que agora revela que sua prioridade é fazer ?jogo de equipe?, e não lutar pelo seu próprio campeonato (ele, que chegou a liderar o Mundial em 2010) não precisava mentir para o público. Não há desdouro algum em atuar como segundo piloto, desde que a opinião pública esteja devidamente informada disso. Pode até ser algo positivo: o segundo piloto pode, por seus próprios méritos, superar o primeiro piloto ? uma corrida de automóveis é absolutamente cheia de imponderáveis, o que torna possível essa realidade sem que o segundo piloto esteja, consciente e deliberadamente, desrespeitando os termos de seu contrato. O desdouro, a indignidade, a calhordice, a falta de caráter está em mentir, em bater no peito, em afirmar que é uma coisa quando não é.
Outro ângulo de visão estreita nessa questão é o posicionamento da FIA ? a toda-poderosa Federação Internacional de Automobilismo, que agora é presidida por um homem chamado Jean Todt. Até outro dia, ele era o todo-poderoso na Ferrari. Foi Jean Todt quem deu a ordem ao diminutivo Rubinho em Zeltweg, na Áustria, para dar passagem a Dick Vigarista na última volta da prova que era liderada pelo caça-níqueis brasileiro. Será que a FIA de Jean Todt ? a mesma FIA que puniu a Ferrari há oito anos com uma multa de 1 milhão de dólares e promessa de uma punição severamente endurecida, caso uma palhaçada dessas se repetisse ? irá punir exemplarmente a Ferrari que enfiou a Fórmula 1 na lata do lixo em Hockenheim 2010? Pouco provável. Muito pouco, muito pouco, pouco mesmo.
Diante de (mais essa) ridícula atuação da equipe Ferrari, só resta a pergunta: não valeria mais a pena se a mola que atingiu a cabeça de Felipe Massa nos treinos do GP da Hungria de 2009 tivesse encerrado de vez sua carreira, enquanto ele ainda tinha um nome a zelar? Não necessariamente. A lei do livre arbítrio garante as escolhas, mas é igualmente impiedosa: em troca de salário no fim do mês, Felipe Massa, conscientemente, preferiu adquirir o indelével estigma de ?bundão? diante de todos (pais, filhos, amigos, fãs, opinião pública) e viver o resto de seus dias com a alcunha de Felipinho Massichello, em vez de reverenciar a herança de John Surtees, que durou apenas uma temporada na Ferrari exatamente por desobedecer as ordens do Comendador Enzo.
A conclusão é inescapável: depois da morte de Ayrton Senna e das presepadas de Rubinho, Piquezinho e Felipinho na categoria, as portas da Fórmula 1 estão definitivamente fechadas para os brasileiros.
|