|
Rio - Em janeiro de 1988, retornei pela segunda vez à Rádio Nacional, na Praça Mauá, como comentarista de futebol. O esporte, na época, era comandado por Teixeira Heizer, ex-companheiro de tempos remotos na então TV Globo. O narrador principal, profissional competente e grande figura humana, era Doalcey Bueno de Camargo (1930-2009).
Com o objetivo de aproveitar o valioso arquivo fonográfico da emissora, eu, como o ator e diretor americano Woody Allen, era também um homem da ?Era do Rádio?. E decidi criar aos domingos um programa a que dei o nome de ?Gol de Placa?, antes das transmissões esportivas da Nacional.
De qualquer maneira, para me precaver, caso estivesse escalado para comentar algum jogo ? Campeonato Carioca ou Brasileiro ? tomei a iniciativa de sempre gravar o ?Gol de Placa? na noite de sexta-feira, assim que fechava a edição da Tribuna da Imprensa, na Rua do Lavradio.
O ?Gol de Placa?, modéstia à parte era um sucesso. Por quê? Simplesmente porque eu buscava, nos arquivos da emissora, jogos antigos, que lá estavam gravados desde os tempos de Jorge Cury (1920-1985), Waldir Amaral (1926-1997) e Antônio Cordeiro (dados não disponíveis).
Um exemplo: em determinado domingo, sempre das 13 às 14 horas, eu revivia os gols da partida Brasil x Uruguai, disputada a 16 de julho de 1950. Curiosamente, Antônio Cordeiro, que apresentava também o programa ?No Mundo da Bola?, era o locutor principal e, no segundo tempo daquela fatídica partida ? cada um apresentava um tempo de jogo - narrou apenas o gol de Friaça, logo no início do segundo tempo. Coube a Cury ? torcedor fanático do Flamengo ? a tarefa de narrar os gols de Schiafino e Gigghia, que deram a Taça Jules Rimet ao Uruguai. Geralmente, na mesma noite de sexta-feira, eu levava um convidado para debater comigo os resultados dos jogos, pois o ?Gol de Placa?, com fundo musical, levava uma hora.
Pois muito que bem. Certo dia fui chamado por Teixeira Heizer e Sidney Amaral, que ajudava o chefe na coordenação dos trabalhos. Eles queriam que eu vendesse meu programa ou, em poucas e resumidas palavras, que arranjasse um patrocinador para o ?Gol de Placa?. Levei um susto, inclusive porque a Rádio Nacional tinha um departamento de publicidade. Mas fui claro e preciso e disse aos dois:
- Sou jornalista e radialista e não corretor de anúncios. Além do mais, como editor da Tribuna da Imprensa, não tenho tempo sequer para tentar a corretagem de publicidade. Até porque as rádios Globo e Tupi já praticam uma batalha de foice no escuro em busca de patrocinadores. E, por fim, não saberia nem por onde começar...
Apesar do golpe sujo ? o de exigir que eu saísse em campo para conquistar anúncios para o ?Gol de Placa? ? segui em frente com o mesmo empenho, muitas vezes ajudado por minha mulher, Ada Regina ? diagramadora da Tribuna da Imprensa ? que me auxiliava a escolher o fundo musical de cada um dos programas.
Em resumo, muitas vezes deixávamos a Praça Mauá às duas da matina, depois de gravar o ?Gol de Placa? para domingo, num dos muitos estúdios da Nacional, sempre às sextas-feiras. Era, a rigor, na linguagem jornalística, o chamado ?esforço de reportagem?. Mas de nada valeu tanto empenho. Alguns meses depois fui demitido, justamente por não arrumar um patrocinador para o programa. Fica então a pergunta:
E o departamento de publicidade da Rádio Nacional? O que fez? Nada, rigorosamente nada.
|