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Gerald Thomas - Nova Iorque

Publicada em: 4/28/2008
Fonte: www.diretodaredacao.com

Miami (EUA) - Hoje, domingo de manhã, um casal de brasileiros deitado na areia do Fountainebleau pega o Nextel em viva voz e fala assim: ? Pô aé! Se não fosse pela feijoada eu taria ai com voces!!!!?

Pensei, refleti, pensei de novo. Olhei em volta. Homens de kipá (judeus ortoxos, com suas JAPs ? Jewish american princesses do lado), latinos, gregos, árabes, ingleses, franceses... o diabo. Todos nós servidos por humildes peruanos, colombianos, haitianos...ilegais.

Bem, essa feijoada é, evidentemente, aqui em Miami e esse cara está hospedado aqui, é o típico turista brasileiro. Ela completa: ?papai e mamãe estão comprando presentinho pra vocês, viu??

Meu deus! O novo rico! O dinheiro novo. O emergente! Miami é ?o? santuário pra esse tipo de gente e?ainda parece ? em alguns lugares - com a própria Barra da Tijuca! Peraí, a Barra é que parece com Miami, Gerald, será que você não se toca? Ah, claro! Ah sim, o novo rico... e eu tentando esconder o livro que estava debaixo do braço: ?1968, o que fizemos de nós? ? uma ode aos tempos, um triste depoimento ao eunuco, a idade indefinida, a sexualidade indefinida, escrito por Zuenir Ventura, o mestre. Eu estava vendo, vivenciando o que Zuenir descrevia no livro, só que numa espécie de asterisco do mundo, um asterisco arisco e latino que inclui uma brasileirada fruto do novo dinheiro.

O fato é que Miami está ou é hoje ? de longe ? a muvuca do mundo. Pelo menos, South Beach, Ocean Drive, esse strip de milha e meia, que corre paralela a Collins Avenue e que tem cantos definidos e spots definidos e onde tudo virou indústria.

Andando a pé pela muvuca da Ocean Drive ou vendo a putaria, percebo que ? cada vez menos- se fala inglês: pior, cada vez menos se ?entende? inglês. Aqui o inglês virou completamente secundário.

Dos cinco táxis que peguei, dois motoristas eram brasileiros. Uma era brasileira , de Goiânia: Maria Borges. Conversamos pouco, ela tímida, eu também. Mas onde quero chegar? No Tides? Na mansão do Versace? No bar gay do lado ou do outro lado onde pululam las putchas e seus pimps e traficas que não cabem na calçada? Não nego que o cheiro de tesão chega a transbordar pelas calçadas e tem até turma de motoqueiro de máscara pra fazer com que a gente se sinta dentro da serie CSI-Miami. Só falta aparecer o David Caruso em seu Hummer e?.. Sem falar que em NY não temos uma Lincoln Road, aberta tão tarde como aqui com essa fauna, polícia correndo atrás de peruas de salto alto, produtos de consumo. Consumo humano, é só pagar e levar pro hotel: mas cuidado, senão elas te esvaziam e você fica a ver os belos navios da Biscayne! Se tem uma fauna e flora viva é aqui! Mas a troco de quantas vidas mortas? E quantas sociedades moribundas? Não sei responder! Essa feijoada já deve estar pesando na barriga do casal e as caipirinhas já devem ter subido a cabeça deles e?. Ou então já devem ter brigado porque... sei lá. Chega!

?No meu pais, existe fome e miséria, meu senhor?, me dizia o simpatico mensageiro do hotel, um haitiano. ?E no entanto aqui, na nova versão desse hotel terão sete novas piscinas e onze restaurantes?.

Eu já estava comovido com o livro do Zuenir e esboçei uma lágrima com o Patrice, de Port au Prince. O livro do Zuenir merece mais que uma coluna, merece um estudo aprofundado. Não pode ser, não deve ser comentado levianamente.

O que me atria sempre em Miami? O que me atrai é esse sexo a flor da pele que faz com que uma mera adolescente mude de roupa e se enturme com a muvuca mais muvuquenta. Ela é, digamos, de uma familia tradicional de um país ou estado qualquer. Chegou aqui, pegou a coceira no ar e la se foi ?pra nite?! E em pleno dia! E adeus! Só se verá essa menina daqui a alguns dias. Voltará tatuada e ?

O que me atrai me repugna, mas me atrai! A cidade proibida. Todo novayorkino vem pra cá. Mas agora parece que o mundo inteiro ?mesmo? desceu aqui, parece um despacho que não apaga! Parece o terreiro mais vivo do mundo!

Fauna, zoológico, etnias e nacionalidades: estamos virando muitos, muitissimos nesse planeta e se algo tiver que transbordar terá que transbordar aqui: é uma ?arca que não-é?, ao inves de ?Arca de Noé?, um dilúvio sempre por vir, a Babel se entreolhando: o zoológico humano e se procriando através da ilegalidade, drogas e prostituição.

Se em NY estão todos cobertos, aqui, com a nudez nada castigada, ela, a nudez, vira uma aberração: os obesos pedindo comida e mais comida e falando árabe ou hebraico aos berros, os latinos latindo, judeus de kipá, o bate-estacas constante de uma rave enraivecida com os caras se observando porque as máfias se policiam e visam o lucro e aqui a luta pela sobrevivência é mais desnuda que em qualquer lugar que já vi. Sempre vejo a mesma cena: mais Porsches conversíveis num único quarteirão, com calota dourada, turmas desvairadas de russos e de croatas e de nicaraguenses, etc!

Na praia, mais pelanca, maquiagem, unhas longas e mais celulite e a latinada berrando com seus filhos que passam por nós esparramando areia para inconveniência de todos.

Ah, as drogas e las putchas! Só numa única subida de elevador (estou no 34 andar), vem vários mensageiros: ?olha eu sou o número 48?, o outro: ?eu sou o número 57?, e assim por diante: ?o que o senhor precisar ?desde qualquer cosa desde la chica mas rica and beautiful, you understand me sir, please just call my number any time of day or night and I can get you anything!!!?

Daqui a alguns anos não se falará mais inglês em Miami, quem sabe em parte de LA também não. Os excluídos serão os que nasceram aqui e pagam seus impostos. O que vocês acham disso, se esse fosse o caso no Brasil? ?E ai meu irmão? Aquela feijoada?? Me levanto, com o livro do Zuenir nas mãos, e umas anotações na mão, o rabo entre as pernas de vergonha e fico com uma enorme pena do fato do Zu não ter visto algumas dessas cenas interessantérrimas, tristes, decadentes, efervecentes, borbulhantes que dão tesao e frio na espinha, assim como dão depressão. Muito parecido como o material que compilou pro seu livro, e muito parecido com o que viramos todos, digo nós que partimos de um ponto, de um ideal, mas que nos encontramos noutro tão completamente diferente. Isso é bom? Ruim? Nada disso. Simplesmente não existimos mais.


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